Nesta seção vamos
comentar alguns textos bíblicos comumente usados para defender a teoria
da trindade e o Espírito Santo como sendo uma pessoa distinta. Com a
crescente aceitação por parte dos estudiosos de que I João 5:7 e 8 foi
uma adição posterior à elaboração do original, estando já ausente de
muitas versões fiéis ao original, a responsabilidade de sustentar a
teoria trinitariana recaiu fortemente sobre Mateus 28:19 e João 14:16,
que falam respectivamente sobre o batismo “em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo” e sobre o “outro” Consolador prometido por Cristo.
Além destes textos, os defensores da
teoria da trindade costumam alegar que algumas ações do Espírito de Deus
são próprias de pessoas, além disso existem versos que citam o Pai, o
Filho e o Espírito. Tais referências, segundo os trinitarianos,
serviriam como evidências da existência da trindade. Antes de comentar
estes textos, é importante ressaltar que a palavra trindade não
aparece em nenhum lugar na Bíblia e que esta teoria foi aceita como
doutrina apenas por volta do quarto século da era cristã. Abordaremos
alguns aspectos históricos na próxima seção.
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“Estes Três São Um” – I João 5:7
“Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são um.” – I João 5:7.
Não há dúvidas. Este texto é o único que
afirma claramente que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um sem
necessidade de interpretação particular. Seria uma prova perfeita da
existência da trindade, caso não fosse um texto comprovadamente
apócrifo, um texto adicionado posteriormente que não consta nos
manuscritos mais antigos.
A maioria das traduções fiéis já omitiu
este verso. A Bíblia de Jerusalém, uma das versões mais fiéis ao
original que dispomos em português, omite tal verso e adiciona a
seguinte nota marginal:
“O texto dos vv. 7-8 está acrescido na
Vulgata de um inciso ausente dos antigos mss gregos, das antigas versões
e dos melhores mss da Vulgata, o qual parece ser uma glosa marginal introduzida posteriormente no texto.”
Na edição João Ferreira de Almeida
Revista e Atualizada I João 5:7 está entre colchetes com a seguinte
explicação no início do Novo Testamento:
“Todo conteúdo entre colchetes é matéria da Tradução de Almeida, que não se encontra no texto grego adotado.”
O Novo Testamento Trilíngüe das Edições
Vida Nova mostra simultaneamente a versão em Grego do Novum Testamentum
Graece Nestlé-Aland, 4ª Edição, a versão em Português Almeida Revista e
Atualizada 2ª Edição e o texto em Inglês da New International Version,
onde os textos dos três idiomas estão dispostos lado a lado e podem ser
comparados facilmente pelo leitor. Repare que apenas a versão em
Português contem a adulteração Trinitariana.
A nota de rodapé do texto grego diz o seguinte:
“O texto dos versículos 7 e 8 entre
colchetes na Almeida Revista e Atualizada nunca fez parte do original.
Os manuscritos mais antigos que contém o texto são da Vulgata Latina do
século XVI.”
*
Percebe-se claramente que houve uma
ousada tentativa de adulteração da Palavra de Deus a fim de introduzir o
dogma da Santíssima Trindade que nunca esteve claro na Bíblia. Será que
esta foi a única tentativa dos padres trinitarianos? Ou será que eles
tentaram adulterar outros textos para tornar do dia para a noite a
doutrina da trindade um ensino bíblico? Quantos textos bíblicos foram
adulterados em favor da teoria trinitariana?
É muito difícil responder a estas
questões pois não temos o original grego escrito pelos apóstolos. É
relativamente fácil identificar uma adulteração trinitariana feita no
século 16 (exemplo I João 5:7), mas o mesmo não pode se afirmar com
relação a adulterações mais antigas, principalmente as adulterações
anteriores ao quarto século.
Apesar de haver evidências suficientes
de que alterações foram feitas para “beneficiar” algumas doutrinas
pagãs, podemos confiar na Palavra de Deus pois ela mantém a verdade
original sem perda de essência. Mesmo que haja algum tipo de
adulteração, o Senhor nos revelará como fez com I João 5:7 através de
provas incontestáveis ou através de fortes evidências como veremos a
seguir.
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Batismo em Nome do Espírito Santo? – (Mateus. 28:19)
“Ide, portanto, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo.” – Mateus 28:19.
Com a generalizada aceitação de que I
João 5:7 é um texto espúrio, o peso da defesa da trindade caiu
fortemente sobre Mateus 28:19 que passou a ser o verso preferido dos
defensores da teoria da trindade. A razão é simples: nenhum outro verso
bíblico coloca no mesmo patamar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, ou
seja, a famosa e consagrada expressão “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” não aparece em nenhum outro lugar na Bíblia – apenas em Mateus 28:19.
No entanto, esta fórmula batismal tem trazido controvérsia entre os estudiosos por diversas razões:
- A sugestão de existência de uma trindade não se coaduna com a crença do público alvo do livro (os judeus).
- O contexto (verso 18) diz que a autoridade foi dada a Cristo o que sugeriria, naturalmente, uma ação posterior em nome de quem tem e delega a autoridade, no caso, em nome de Cristo Jesus apenas.
- Os batismos realizados posteriormente pelos discípulos foram em nome de Jesus apenas.
- Todas as orientações de Cristo e as ações dos discípulos (orações, milagres, expulsão de demônios, advertências, reuniões e pregações,…) foram em nome de Jesus e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
- Há evidências tangíveis de que a fórmula batismal trinitariana não conste do original, mas tenha sido adicionada posteriormente.
Passaremos a analisar cada uma destas
causas de controvérsias, antes porém, algumas palavras importantes sobre
a confiabilidade e integridade bíblica.
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Integridade Bíblica
“Ao falar acerca destes assunto, como de fato costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender,
que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais
Escrituras, para a própria destruição deles.” – II Pedro 3:16.
O apóstolo Pedro declarou que nas
Escrituras Sagradas há certas coisas difíceis de entender. A dificuldade
vem em decorrência de alguns fatos incontestáveis: (1) Algumas pessoas “ignorantes e instáveis” aproveitam-se de alguns pontos isolados
para impor seus ensinos particulares – ignoram a regra geral e
apegam-se fortemente nas exceções. (2) A mensagem de Deus é
infinitamente profunda e nós somos limitados. A fonte de que dispomos, a
Bíblia, foi escrita em linguagem humana, traduzida para outros idiomas
igualmente limitados e sujeitos a falhas de interpretação.
Vamos citar um exemplo da fragilidade da linguagem humana na interpretação de versos isolados:
“Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.” – Lucas 23:43.
Esta célebre promessa de Cristo ao “bom
ladrão” é freqüentemente usada por pessoas que acreditam que após a
morte o crente vai imediatamente para o paraíso. De fato, se Cristo
prometeu que naquele mesmo dia estaria com o ladrão no paraíso, então
isso mostra que herdamos o paraíso no mesmo dia de nossa morte. Isso é
verdade?
Sabemos que infelizmente, devido a uma
fragilidade e limitação do idioma e da tradução, pode haver em um ou
outro texto algum tipo de imprecisão. Mas tais imprecisões não devem nos
desanimar em estudar com afinco a Palavra de Deus, pelo contrário, é
estudando arduamente que teremos uma visão melhor do todo e tais textos
poderão ser bem compreendidos sob a luz de outros textos. Acreditamos
plenamente que Deus preservou sua Palavra ao longo dos séculos e que não
houve perda de sua essência. Quando aparece um verso difícil de
entender, que parece contradizer todo o resto da Palavra de Deus,
devemos contrastá-lo com outros.
No caso da promessa de Cristo ao “bom
ladrão” sabemos que ao longo dos séculos houve uma perda no significado
original. Cristo não esteve com o ladrão no paraíso no mesmo dia de sua
morte. Outros textos dão evidências claras deste fato: Os ladrões não
morreram no mesmo dia (João 19:31) e, além disso, Cristo após sua
ressurreição declarou que ainda não havia subido ao seu Pai (João
20:17). Além disso há outros textos que afirmam que a morte é um sono e
que haverá a ressurreição no último dia. Portanto, a análise de outros
textos nos leva indubitavelmente ao significado correto do texto, que
deveria ser: “Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo hoje, estarás comigo no paraíso.”
Cremos que as imprecisões da língua são
causa de muitas confusões doutrinárias. Por esta razão o melhor conselho
para evitar erros doutrinários em decorrência destas imprecisões é:
Analisar o texto controvertido dentro do seu contexto.
Analisar outros textos bíblicos que abordam o mesmo assunto.
- Quando possível, recorrer ao original hebraico ou grego para desfazer dúvidas remanescentes.
Acima destas três regras que procuramos
obedecer ao elaborar este livro, está a confiança do poder de Deus que,
através do seu Espírito, atua em nossa mente nos guiando em toda a
verdade. Passemos agora a analisar as dificuldade na interpretação de
Mateus 28:19.
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Inconsistência com o Público Alvo
Acredita-se que o livro de Mateus tenha
sido escrito em aramaico (ao contrário dos demais livros do Novo
Testamento que teriam sido escritos em grego). O objetivo de Mateus era
alcançar os judeus convencendo-os de que Jesus Cristo era o Messias
descrito pelos profetas do Antigo Testamento. Desta forma, causa-nos no
mínimo alguma estranheza a menção de uma fórmula batismal que sugira a
existência de uma trindade jamais aceita pelos judeus. Isto porque a
crença dos judeus se baseia totalmente no Velho Testamento, onde não há
qualquer sugestão da existência de uma trindade. Baseados no Velho
Testamento, os judeus aceitam um único Deus e a proposta de uma trindade
soaria absurda. Ademais, o objetivo de Mateus não era convencê-los da
existência de uma trindade, mas mostrar Jesus como o Messias.
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Análise Contextual – A Autoridade de Cristo
Como em todo texto controvertido, temos
que dedicar tempo e esforço para a compreensão não apenas do verso em
questão, mas também do seu contexto. Neste ponto, devemos compreender
claramente o que significa fazer algo em nome de alguém.
“Fazer algo em nome de alguém” significa
a concessão ou delegação de poder para outra pessoa. Por exemplo, um
policial não tem autoridade se esta não lhe fosse dada pela lei. Por
isso, ao deter um criminoso em flagrante, o policial poderá dizer:
“Preso em nome da Lei”, em outras palavras, “Estou lhe prendendo com a
autoridade que a lei me dá”. O poder de prender alguém em flagrante
deriva da lei e se estende não apenas às autoridades policiais, mas a
toda pessoa comum do povo que testemunha um crime. O artigo 301 do
Código de Processo Penal diz que “qualquer do povo poderá e as
autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja
encontrado em flagrante delito.” Provavelmente você não sabia que a
lei do nosso país lhe dá autoridade para prender um criminoso em
flagrante e entregá-lo às autoridades. Desta forma, como a autoridade lhe foi dada pela lei, você pode dirigir-se a um criminoso e dar-lhe voz de prisão: “O senhor está preso em nome
da lei.” (Por motivos óbvios recomendamos que esta autoridade seja
usada com cautela, avaliando muito bem as conseqüências de curto prazo.)
Da mesma forma, um representante de
estado, por exemplo, um embaixador, age não por si mesmo, mas em nome de
uma nação. O mesmo vale para um delegado, um procurador, um advogado ou
qualquer outro representante legal. Este representante, advogado ou
procurador age apenas em nome de alguém que tenha lhe dado autoridade
para tanto. Por isso podemos afirmar sem medo de errar que existe uma
íntima relação entre fazer algo em nome de uma pessoa e a autoridade que
esta pessoa confere a outrem.
Imagine que você é enviado pelo
Presidente da República a uma repartição pública com uma procuração
oficial assinada pelo presidente. Ao chegar você se identifica: “Meu
nome é João da Silva e vim em nome do Presidente da República.” Você
pode não representar muito para os funcionários desta repartição, mas
como você age em nome de alguém que tem autoridade, então é prontamente
atendido. Não seria assim se você estivesse representando uma pessoa
comum. Imagine-se agora chegando na mesma repartição com uma procuração
assinada pelo seu cunhado, Eustáquio Miranda. Você poderia agir em nome
do Eustáquio Miranda, mas não teria o mesmo atendimento pois a
autoridade do seu cunhado não é comparável à autoridade do presidente.
Estes exemplos simples foram citados apenas para mostrar a forte relação entre fazer algo em nome de alguém e sua autoridade.
Analisando o contexto de Mateus 28:19,
especialmente o verso 18, vemos que a autoridade a que Mateus se refere é
a autoridade de Cristo e não a autoridade de uma trindade:
“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” – Mateus 28:18.
Seria esperado, portanto, na sucessão
natural da grande comissão, que Jesus comissionasse os discípulos como
seus representantes, seus procuradores agindo exclusivamente em seu nome e com a sua autoridade.
Mas, surpreendentemente, embora a autoridade seja a de Cristo, a
recomendação é que os discípulos batizem em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Isto é, no mínimo, muito estranho! Mas vejamos como os
discípulos obedeceram a esta ordem de Cristo.
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Em Nome de Quem os Discípulos Batizaram?
O livro de Atos relata vários batismos,
mas nenhum deles foi realizado em nome da trindade. Os exemplos que
temos da era apostólica demonstram claramente que os batismos foram
realizados em nome de Jesus. Vejamos alguns exemplos começando com o
apelo de Pedro aos judeus na festa do Pentecostes:
“Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom o Espírito Santo.” – Atos 2:38.
Estaria Pedro, por acaso, desobedecendo a
ordem clara do Mestre que o batismo deveria ser realizado em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo? Por que Pedro recomendou um batismo
em nome de Jesus apenas? Vejamos como haviam sido batizados os crentes
de Samaria:
“Porquanto não havia ainda descido sobre nenhum deles, mas somente haviam sido batizados em o nome do Senhor Jesus.” – Atos 8:16.
O livro dos Atos também relata que gentios foram batizados em nome de Jesus e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:
“E ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então lhe pediram que permanecesse com eles por alguns dias.” – Atos 10:48.
O livro dos Atos relata até mesmo casos de rebatismo em Éfeso:
“Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus.” – Atos 19:5.
Por que os discípulos batizaram em nome
de Jesus e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Por que os
batismos hoje são em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
(baseando-se em apenas um verso e ignorando todos os demais que ensinam
que o batismo deve ser em nome de Jesus)?
Em Romanos 6:3 Paulo afirma que “fomos batizados em Cristo Jesus”. Ele nunca afirmou que fomos batizados na trindade.
Exortando sobre a necessidade de unidade em Cristo, Paulo pergunta aos Coríntios:
“Acaso Cristo está dividido? Foi Paulo
crucificado em favor de vós, ou fostes porventura, batizados em nome de
Paulo?” – I Coríntios 1:13.
Embora este verso não diga tão
claramente quanto os anteriores que o batismo é em nome de Jesus, há uma
evidência clara da intenção do apóstolo. Cristo não está dividido.
Jesus Cristo foi crucificado em favor dos crentes e estes foram
batizados em nome dEle, sugere o verso.
Escrevendo aos Gálatas, Paulo reafirma o que foi dito até o momento:
“Porque todos quantos fostes batizados em Cristo, de Cristo vos revestistes.” – Gálatas 3:27.
Não apenas os batismos foram realizados
em nome de Cristo, mas todas as palavras e obras dos cristãos devem ser
em nome de Jesus Cristo (não em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo).
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Tudo em Nome de Jesus Cristo
“E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.” – Colossenses 3:17.
Paulo recomenda que tudo
deve ser feito em nome de Jesus. O que está incluído nesta expressão
“tudo”? Todas as coisas estão incluídas aqui (inclusive batismos). É
hora de você pegar sua Bíblia e conferir os versos abaixo.
ð As orações devem ser feitas em nome de
Jesus, não em nome de uma trindade. Veja vários exemplos: João 14:13 e
14; João 15:16; João 16:24, 26 e 27; Tiago 5:14.
ð Advertências, admoestações e
repreensões foram feitas em nome de Jesus, nunca em nome da trindade.
Confira: I Cor. 1:10; 5:4; II Tess. 3:6.
ð Nenhum milagre foi feito em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas em nome de Jesus. Abra sua Bíblia
e leia os seguintes versos: Mat. 7:22; Mar. 9:38-40; Mar. 16:15-18;
Luc. 10:17; Atos 3:6; 4:7-12; 4:30; 16:18.
ð Obras de caridade também foram realizadas em nome de Jesus. Veja: Mat 18:5; Mar. 9:37 e 41; Luc. 9:48.
ð Até mesmo reuniões espirituais e
pregações devem ser realizadas em nome de Jesus, não em nome da
trindade. Leia estes exemplos: Mat. 18:20; Luc. 24:46 e 47; Atos 4:18;
9:27 e 29; Efés. 5:20; Tiago 5:10.
ð O mais impressionante é que até mesmo o Espírito é enviado em nome de Jesus conforme João 14:26.
ð Enfim, como diz Paulo, tudo deve ser
feito em nome de Jesus, pois nossa salvação é também em nome do nosso
Senhor Jesus Cristo. Veja Atos 4:12; João 20:31; I Cor. 6:11.
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A Autenticidade de Mateus 28:19
Diante de tantas inconsistências e
incompatibilidades com o restante dos escritos sagrados, Mateus 28:19
tem sua autenticidade questionada. A história demonstra que na era
apostólica batizava-se apenas em nome de Jesus, sendo que batismos em
nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo só foram realizados muitos
anos após a morte dos apóstolos. Vejamos o que as enciclopédias dizem a
respeito da origem da trindade e do batismo em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo:
Enciclopédia Britânica:
“A fórmula batismal foi mudada do nome de Jesus Cristo para as palavras
Pai, Filho e Espírito Santo pela Igreja Católica no 2º Século.” – 11a
Edição, Vol.3 – págs. 365-366. (em inglês)… “Sempre nas fontes antigas
menciona que o batismo era em nome de Jesus Cristo.” – Volume 3 pág.82.
Enciclopédia da Religião – Canney:
“A religião primitiva sempre batizava em nome do Senhor Jesus até o
desenvolvimento de doutrina da trindade no 2° Século.” – pág. 53 (em
inglês).
Nova Enciclopédia Internacional: “O termo “trindade” se originou com Tertuliano, padre da Igreja Católica Romana.” – Vol. 22 pág. 477 (em inglês).
Enciclopédia Da Religião – Hastings:
“O batismo cristão era administrado usando o nome de Jesus. O uso da
fórmula trinitariana de nenhuma forma foi sugerida pela história da
igreja primitiva; o batismo foi sempre em nome do Senhor Jesus até o
tempo do mártir Justino quando a fórmula da trindade foi usada.” – Vol.2
pg 377-378-389 (em inglês)
O Pastor Adventista do Sétimo Dia
Alejandro Bullón, no livro “O Terceiro Milênio” fala de alguns conflitos
internos enfrentados pela igreja da idade média por causa de doutrinas
estranhas:
“Naquele período, a Igreja cristã passou a ter conflitos internos por causa de doutrinas estranhas que pretendiam misturar-se às verdades bíblicas. Entre as doutrinas em conflito, podemos mencionar: o pecado original, a trindade,
a natureza de Cristo, o papel da virgem Maria, o celibato e a
autoridade da Igreja.” – O Terceiro Milênio e as Profecias do Apocalipse
– Alejandro Bullón – págs. 41 e 42.
A Bíblia de Jerusalém incluiu o seguinte comentário de rodapé a respeito de Mateus 28:19:
“É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livro dos Atos fala em batizar “no nome de Jesus”. Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado ás três pessoas da trindade.”
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Mateus 28:19 Original e a Crítica Textual
Crítica textual é o método utilizado por
estudiosos para se conhecer o texto original, ou, pelo menos, chegar
próximo do original. Metodologias foram desenvolvidas neste sentido pois
sabe-se que as versões que chegam até nós, após várias cópias e
traduções, raramente vem com 100% de precisão. Hoje existem, espalhados
por museus e bibliotecas no mundo inteiro, aproximadamente 5500
manuscritos que vão desde fragmentos de papiro até Bíblias completas
produzidas após a invenção da imprensa.
É fato comprovado que há muitas
diferenças entre estes manuscritos e como não temos acesso ao original,
surgem as questões: Qual destes manuscritos é o mais confiável? Qual
está mais próximo da versão original?
Muitos cristãos acreditam que Deus
preservou cada ponto e cada vírgula das Escrituras, mas os 5500
manuscritos e as fontes históricas de que dispomos mostram que houve
mudanças nas Escrituras e que há necessidade de buscas, comparações e
estudos para se chegar à versão mais próxima do original. Temos absoluta
confiança de que Deus inspirou a versão original e preservou a essência
da mensagem bíblica, mas a diversidade de manuscritos demonstra que
houve erros de copistas e possíveis adulterações. É por esta razão que
existe a crítica textual, uma forma de buscar as versões mais fiéis e
que mantêm uma coerência interna.
O ideal seria termos à nossa disposição
os documentos originais do Novo Testamento escritos pelos próprios
apóstolos ou, pelo menos, cópias do primeiro ou segundo séculos. Mas
infelizmente devido à grande perseguição que a igreja sofreu nos
primeiros séculos da era cristã, muitos documentos sagrados foram
destruídos neste período. Portanto, não temos à nossa disposição os
originais do Novo Testamento nem manuscritos dos três primeiros séculos.
Em 303 a.d. Diocleciano, o imperador romano, ordenou que as
propriedades dos cristãos fossem confiscadas e que seus escritos
sagrados fossem destruídos. Só alguns anos depois outro imperador,
Constantino, “converteu-se” ao cristianismo, cessou as perseguições e
promoveu a difusão dos escritos sagrados.
O problema da crítica textual não é a
falta de manuscritos, mas o excesso. Diante de tantos manuscritos
diferentes, como a crítica textual decide qual é a melhor versão? A
primeira fonte de estudos para a crítica textual são os manuscritos
antigos. As fontes históricas idôneas também servem como subsídio para
os estudiosos e críticos textuais. Uma fonte utilizada pela crítica
textual são as citações bíblicas feitas pelos escritores e historiadores
religiosos dos primeiros séculos. Neste período a produção literária
sacra foi muito grande e a citação da Bíblia era muito comum. Estes
escritores dos primeiros séculos baseavam-se em cópias manuscritas do
Novo Testamento mais antigas e confiáveis do que as que dispomos hoje.
Por esta razão estas citações de versos bíblicos feitas por autores
antigos são de grande valor para a crítica literária. Há quem afirme que
a quantidade de citações bíblicas nas obras destes escritores sacros é
tão grande que seria possível, mesmo sem os manuscritos bíblicos,
reconstituir praticamente toda a Bíblia baseado-se apenas nas citações
destes autores. Exagero ou não, vale a pena levar em conta tais citações
se estas podem nos auxiliar numa conclusão sobre qual seria o texto
mais próximo do original no caso de Mateus 28:19.
Veremos na parte final deste livro um
pouco da história da doutrina da Santíssima Trindade. Falaremos um pouco
sobre o Concílio de Nicéia realizado no quarto século e sobre o
estabelecimento da doutrina da Santíssima Trindade pela Igreja Católica.
Infelizmente os manuscritos mais antigos do Novo Testamento de que
dispomos hoje e nos quais nossas Bíblias são baseadas são posteriores ao
Concílio de Nicéia e contém a fórmula batismal “em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo”, mas as citações bíblicas de historiadores
baseados em manuscritos anteriores a este Concílio nos mostram algo
muito interessante!
Eusébio de Cesaréia (270-340 a.d.),
conhecido como o pai da história da igreja, foi provavelmente o maior
historiador da igreja dos primeiros séculos. Sua obra é vasta e ele é
considerado um dos preservadores da literatura sacra em sua época.
Embora não tenha se destacado pela criatividade e originalidade, Eusébio
goza de boa reputação no tocante à sua precisão. Não temos espaço
suficiente para discorrer com detalhes acerca da obra e influência de
Eusébio de Cesaréia, mas sabemos que ele baseou seus escritos em
manuscritos anteriores e mais fidedignos do que os que temos hoje. No
início do quarto século, Eusébio citou Mateus 28:19 diversas vezes em
comentários sobre Salmos, Isaías, e em obras como Demonstratio
Evangelica e Teofania. Também citou este verso em História da Igreja.
Na maioria das vezes suas citações de Mateus 28:19 eram muito
semelhantes a esta:
“Ide e fazei discípulos de todas as nações em meu nome, ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho ordenado.”
É importante ressaltar que toda a
doutrina deve ser obtida da pura Palavra de Deus, não de escritos de
homens, por mais fidedignos que eles sejam. Estes historiadores viveram
em tempos de grande escuridão espiritual quando o paganismo sutilmente
penetrava na igreja. Por esta razão, nosso objetivo ao mencionar as
citações de Eusébio é apenas usar o testemunho dos escritores dos
primeiros séculos como evidência histórica de que a versão original
muito provavelmente tenha sido adulterada. Ao fazer tais citações de
Mateus 28:19, Eusébio usou manuscritos mais antigos e mais fidedignos do
que os que temos hoje.
A. Ploughman, um estudioso inglês, se
interessou em pesquisar a fundo as citações de Mateus 28:19 na obra de
Eusébio. A. Ploughman contou 18 citações de Eusébio contendo o batismo
em nome de Jesus. Segundo a Enciclopédia de Religião e Ética, Eusébio
citou 21 vezes a comissão de Mateus 28, ou omitindo tudo entre “nações” e
“ensinando-os” ou, na forma mais frequente, “fazei discípulos de todas
as nações em meu nome”.
É interessante notar que no final de sua
vida, após o Concílio de Nicéia, Eusébio incluiu em obras como “Contra
Marcelo de Ancira” e “Sobre a Teologia da Igreja” citações de Mateus
28:19 incluindo o batismo em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Isto revela a influência poderosíssima exercida pelo Concílio de Nicéia
em favor da trindade, afetando a produção da literatura sacra no quarto
século.
Fica claro, não apenas pelas evidências
provenientes da crítica textual, bem como da análise do contexto de
Mateus 28:19 e por outras passagens bíblicas, que a autenticidade do
verso em questão é bastante questionável e, portanto, não deve ser
utilizado para provar qualquer doutrina. Ademais, é sempre conveniente
lembrar que nenhuma doutrina bíblica pode ser estabelecida com base em
apenas um verso. Essa regra é um consenso entre os teólogos e estudiosos
da Bíblia. Por isso, batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo é quebrar este princípio e, mais do que isso, desprezar as
abundantes evidências bíblicas de que o batismo deve ser realizado em
nome de Jesus.
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Outras versões de Mateus 28:19
Qual é a melhor versão para Mateus
28:19? Como dissemos, a escolha da melhor versão depende dos critérios
de crítica textual adotados pelos responsáveis pela edição de cada
versão bíblica.
Em 1960, a Sociedade Bíblica Britânica e
Estrangeira publicaram um Novo Testamento em Grego e a alternativa
apresentada para Mateus 28:19 foi “en to onomati mou” (“em meu nome”).
Eusébio foi citado como autoridade em favor desta versão.
Algumas Bíblias que provavelmente
utilizam-se de outros critérios na crítica textual adotam outras versões
para estes textos controversos. O Evangelho de Mateus em Hebraico de
George Howard[1] é um exemplo que não contem a fórmula batismal em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.
*
Uma possível tradução de Mateus 28:19 para o português é a seguinte:
“Jesus, aproximando-se deles,
disse-lhes: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide e
ensinai-os a observar todas as coisas que vos ordenei para sempre.” –
Mateus 28:18-20 (Na Tradução do Evangelho de Mateus em Hebraico)
_______________________________________
[1]
George Howard é Professor Emérito e Chefe do Departamento de Religião e
Professor de Religião da Universidade da Georgia. Ele realiza pesquisas
sobre o Novo Testamento e Judaismo Intertestamental. Seu Ph.D. foi
concluído no Hebrew Union College/Instituto Judaico de Religião (1964).
Ele também estudou em Vanderbuilt e na Universidade Hebraica de
Jerusalém.
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